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RD Station aposta em eventos imersivos: estratégia ou sobrevivência?

A nova investida em experiências presenciais revela mais sobre pressão competitiva do que sobre inovação em produto.

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O movimento: RD Station dobra a aposta em eventos imersivos

Você acompanha o mercado de martech brasileiro há mais de dois anos e percebe uma mudança de postura clara na RD Station. O que antes se concentrava no RD Summit — um megaevento anual que se tornou referência no ecossistema de marketing digital — agora se desdobra em uma estratégia mais ampla de eventos imersivos regionais, encontros verticalizados por segmento e experiências presenciais de produto. A empresa vem comunicando essa movimentação como evolução natural da sua missão de educar e empoderar o mercado. Mas será que a leitura é tão simples assim?

A pergunta que poucos estão fazendo é incômoda: essa aposta em experiência é uma estratégia ofensiva de marca ou uma resposta defensiva a uma pressão competitiva que está se tornando insustentável no produto? Quando uma empresa de software intensifica investimentos em eventos — um canal com ROI difícil de medir e ciclo longo de conversão —, o mercado deveria prestar atenção não só ao que ela está dizendo, mas ao que ela está deixando de dizer.

Neste artigo, vou dissecar esse movimento sob a lente de RevOps. Não porque eventos não importam — importam, e muito —, mas porque a decisão de onde alocar recursos de go-to-market revela as prioridades reais de uma empresa. E as prioridades reais da RD Station em 2026 contam uma história mais complexa do que o press release sugere.

O cenário competitivo que ninguém quer admitir

Para entender a decisão da RD Station, é preciso olhar o tabuleiro completo. O mercado de CRM e automação de marketing no Brasil mudou radicalmente nos últimos 18 meses. A RD Station construiu sua posição dominante em um período em que era, essencialmente, a única opção acessível em português com suporte local. Esse moat está se erodindo de múltiplas direções simultaneamente.

A HubSpot pisou no Brasil — e pisou forte

Como analisamos em detalhe no artigo sobre a operação local da HubSpot no Brasil, a chegada da HubSpot com time local, precificação em reais e ecossistema de parceiros brasileiros mudou a equação competitiva fundamentalmente. A HubSpot não compete apenas em funcionalidade — compete em plataforma integrada. CRM, marketing, vendas, atendimento, conteúdo e operações em um só lugar, com uma API robusta e um marketplace de integrações maduro. Para empresas que estão pensando em RevOps de verdade — alinhamento real entre Marketing, Vendas e CS —, a proposta de valor da HubSpot é estruturalmente diferente.

A Dinamize entrou no jogo de CRM

Não é só o player global. Como cobrimos na análise sobre a Dinamize entrando no mercado de CRM, o ecossistema brasileiro está se fragmentando. A Dinamize lançou CRM e Dashboard próprios, mirando exatamente o público da RD Station: PMEs que precisam de ferramentas acessíveis. O posicionamento é claro — oferecer mais por menos, com suporte local e curva de aprendizado baixa.

A IA está redefinindo automação de marketing

Talvez a pressão mais silenciosa — e mais perigosa — venha da IA generativa aplicada a RevOps e marketing. Ferramentas que antes eram auxiliares (como assistentes de copy ou chatbots básicos) estão se tornando plataformas completas de automação. A capacidade de criar fluxos, segmentações e conteúdo personalizado com IA nativa está deixando de ser diferencial premium para se tornar table stakes. E nesse jogo, a escala de investimento em P&D das grandes plataformas globais é incomparável.

Pressões competitivas sobre a RD Station em 2026 RD Station Posição dominante sob pressão HubSpot Brasil Plataforma integrada + preço local Dinamize CRM acessível + suporte local IA Generativa Automação nativa redefine padrão Salesforce / Zoho Enterprise descendo para mid-market Ferramentas nichadas ActiveCampaign, Brevo, etc.
Mapa de pressões competitivas sobre a RD Station em 2026: ameaças de alto impacto (coral) e pressões secundárias (roxo).

Olhando esse cenário, a pergunta muda de "por que a RD Station está investindo em eventos?" para "o que mais ela poderia fazer?". E é aqui que a análise fica interessante.

Eventos como moat competitivo: funciona ou é ilusão?

Vamos ser justos com a estratégia antes de questioná-la. Eventos presenciais e imersivos como canal de go-to-market não são uma ideia nova — e não são uma ideia ruim. A Salesforce construiu um império de marca em cima do Dreamforce. A HubSpot tem o INBOUND. A AWS tem o re:Invent. Eventos proprietários criam um tipo de capital de marca que nenhuma campanha digital consegue replicar.

Os argumentos a favor são robustos:

  • Criação de comunidade — eventos geram senso de pertencimento. Quem vai ao RD Summit se sente parte de algo. Isso gera retenção emocional que nenhum NPS mede adequadamente.
  • Aceleração de pipeline — um prospect que participa de um evento imersivo e experimenta o produto em contexto avança no funil de forma qualitativamente diferente de quem baixou um e-book.
  • Educação de mercado — em mercados menos maduros (como o brasileiro em muitos segmentos), educar presencialmente ainda é mais eficiente que escalar conteúdo digital. Empresas que precisam ser convencidas de que automação de marketing é necessária respondem melhor a demonstrações ao vivo.
  • Barreira de imitação — construir uma máquina de eventos com credibilidade leva anos. Se a RD Station já tem essa expertise, é um ativo difícil de replicar rapidamente.

Tudo isso faz sentido. Mas há uma verdade incômoda que precisa ser dita:

Eventos são uma estratégia de marca e relacionamento — não são uma estratégia de produto. E o jogo de plataformas de CRM e automação é, fundamentalmente, um jogo de produto.

Quando a Salesforce faz o Dreamforce, o evento é uma vitrine para um produto que lidera em funcionalidade, integrações e ecossistema. Quando a HubSpot faz o INBOUND, os anúncios de produto são o ponto alto. O evento amplifica o produto — ele não substitui a lacuna do produto.

E é aqui que a pergunta fica cortante: a RD Station está usando eventos para amplificar um produto competitivo ou para compensar um produto que está ficando para trás?

O gap de produto que eventos não resolvem

Para quem opera RevOps, a avaliação é pragmática. Como discutimos no artigo sobre como escolher a plataforma de CRM certa, a decisão de stack envolve pelo menos cinco dimensões: funcionalidade, integrações, escalabilidade, custo total de propriedade e ecossistema de suporte. Vamos ser honestos sobre onde a RD Station está em cada uma dessas dimensões comparada ao que o mercado oferece em 2026:

DimensãoRD StationConcorrência (HubSpot, Salesforce, etc.)
Automação de marketingForte para PMEs. Fluxos intuitivos, boa curva de aprendizadoMais robusta em personalização, IA nativa, multicanal avançado
CRM integradoEvolução recente, ainda limitado em customização e relatórios avançadosCRMs maduros com decades de iteração e ecosistemas de apps
IntegraçõesMarketplace crescendo, mas ainda pequeno comparado a players globaisMilhares de integrações nativas; APIs mais robustas
IA nativaFuncionalidades emergentesBreeze (HubSpot), Einstein (Salesforce), copilots nativos
EscalabilidadeTeto percebido — empresas que crescem tendem a migrarEscalam do startup ao enterprise
Suporte localExcelente — nasceu no BrasilMelhorando rapidamente com operações locais

Perceba o padrão: a única dimensão onde a RD Station ainda tem vantagem inequívoca é suporte local e curva de aprendizado para PMEs brasileiras. Todas as outras estão convergindo ou já foram ultrapassadas. E eventos, por mais brilhantes que sejam, não mudam essa tabela.

Framework ORBIT de Ecossistema: quando eventos viram receita

Para não ficar apenas na crítica, quero propor um framework para avaliar se uma estratégia de eventos proprietários se traduz em vantagem competitiva sustentável. Chamo de Framework ORBIT de Ecossistema — não confundir com o Framework ORBIT de implementação de CRM que apresentamos em nosso guia de implementação do dia 0 ao 365, embora partilhe a filosofia de pensar em ciclos, não em ações isoladas.

O ORBIT de Ecossistema avalia cinco fatores que determinam se eventos criam moat real ou apenas barulho:

Framework ORBIT de Ecossistema Quando eventos geram vantagem competitiva sustentável O Oferta integrada R Retenção mensurável B Base ativada I Impacto no pipeline T Transição pós-evento Sem os 5 fatores alinhados, eventos geram awareness — não receita. O evento precisa ser etapa de um ciclo, não um fim em si mesmo.
Os cinco fatores do Framework ORBIT de Ecossistema: cada um deve estar presente para que eventos gerem vantagem competitiva real.

Vamos detalhar cada fator:

  1. Oferta integrada (O) — O evento demonstra um produto/plataforma que funciona como um todo coeso? Ou é uma vitrine fragmentada? Se o produto não sustenta a promessa que o evento faz, o efeito é negativo — o prospect fica entusiasmado, testa, e se decepciona. O Dreamforce funciona porque o Salesforce, com todas as suas complexidades, é uma plataforma que escala. A pergunta para a RD Station: o que exatamente o participante vai encontrar quando sair do evento e abrir a ferramenta?
  2. Retenção mensurável (R) — Existe um mecanismo claro para medir se quem participou do evento renova mais, faz mais upsell, tem menor churn? Se não, o evento é um custo de marketing, não uma alavanca de receita. Empresas maduras em RevOps conseguem rastrear o impacto de eventos na retenção. A maioria não faz isso.
  3. Base ativada (B) — O evento ativa a base existente de clientes ou apenas atrai curiosos e freemium? Eventos que geram receita real ativam quem já está no ecossistema — fazem o cliente descobrir funcionalidades que não usa, conectam-no com parceiros de implementação, geram expansão de conta. Se o evento traz gente nova mas não ativa quem já paga, o CAC sobe e o LTV não se move.
  4. Impacto no pipeline (I) — Qual o pipeline gerado ou acelerado diretamente pelo evento? Não brand awareness genérico — deals reais. Tem tracking? Tem atribuição? Como discutimos no artigo sobre a verdade sobre atribuição de marketing, medir isso é difícil, mas não impossível. Se a empresa não consegue provar o impacto no pipeline, o CFO eventualmente questiona o investimento.
  5. Transição pós-evento (T) — O que acontece nas 48 horas depois do evento? Existe um processo estruturado de follow-up, com handoff automatizado para vendas com SLAs claros? Ou o participante volta para a vida real e esquece? A maioria das empresas investe milhões em eventos e faz follow-up por planilha de Excel.

Aplicando o ORBIT à estratégia da RD Station, o cenário é misto. A empresa tem forças claras em Base ativada (sua comunidade é genuinamente engajada) e provavelmente em Transição pós-evento (seu marketing automation é o core business — seria irônico não usar). Mas a Oferta integrada é onde o calcanhar de Aquiles aparece: se o produto não acompanha a evolução que o mercado está exigindo, o evento pode se tornar uma promessa que a experiência pós-compra não cumpre.

Na prática: como uma operação de marketing avalia esse tipo de aposta

Vamos sair da teoria e entrar em um cenário concreto. Imagine uma empresa de tecnologia B2B que fatura R$ 25 milhões por ano, com cerca de 80 funcionários. A empresa usa RD Station para automação de marketing há quatro anos. O time de marketing tem 6 pessoas. O time de vendas, 12. Existe uma pessoa de RevOps — contratada em 2025 — que está tentando criar uma operação integrada.

O diretor de marketing recebe o convite para um dos novos eventos imersivos da RD Station. A proposta é tentadora: dois dias de imersão, com workshops práticos, acesso a novos recursos da plataforma, networking com empresas do mesmo porte e cases de sucesso. Custo total (inscrição + deslocamento + hospedagem para 3 pessoas do time): aproximadamente R$ 18.000.

A avaliação pelo framework ORBIT

A profissional de RevOps da empresa faz a avaliação antes de aprovar o investimento:

  • Oferta integrada: a empresa está sentindo limitações no CRM da RD Station. Os relatórios não são suficientes para o board. A integração com o ERP é precária. Já houve conversas internas sobre migrar para a HubSpot. Nota: 4/10.
  • Retenção mensurável: se participarem, vão descobrir funcionalidades que não usam? Possível, mas o gap percebido não é de adoção — é de funcionalidade. Nota: 5/10.
  • Base ativada: a empresa já é cliente. O evento pode ser valioso para networking e aprendizado com pares. Nota: 7/10.
  • Impacto no pipeline: não aplicável — eles são clientes, não prospects. Para a empresa em si, o impacto é em retenção, não aquisição. Nota: N/A.
  • Transição pós-evento: o que acontece quando voltam? Aplicam o que aprenderam? Historicamente, a resposta é: implementam 20% nos primeiros 30 dias e esquecem o resto. Nota: 5/10.

A soma leva a uma decisão que a RD Station provavelmente não gostaria de ouvir: o time decide enviar uma pessoa ao evento para networking, mas em paralelo inicia um processo formal de avaliação de outras plataformas. Os R$ 18.000 economizados vão para um piloto de 3 meses da HubSpot em paralelo.

Os números que importam

A profissional de RevOps modela os dois cenários para o CFO:

CenárioInvestimento 12 mesesResultado esperadoRisco principal
Manter RD Station + eventos imersivosR$ 72.000 (licenças) + R$ 18.000 (evento) = R$ 90.000Incremental: melhor uso de funcionalidades existentes. Gap de CRM e relatórios persiste.Teto de funcionalidade atingido em 12-18 meses. Migração futura será mais cara.
Migração para HubSpot ProfessionalR$ 156.000 (licenças) + R$ 80.000 (implementação com parceiro) = R$ 236.000Plataforma unificada. CRM robusto. IA nativa. Integrações amplas. Relatórios para board.Custo de migração. Curva de aprendizado. 4-6 meses até operação plena.

O delta é de R$ 146.000 por ano. Para uma empresa de R$ 25 milhões, isso é menos de 0,6% do faturamento — dentro da faixa que discutimos como investimento adequado em infraestrutura de receita. A pergunta se torna: esse investimento adicional se paga em pipeline acelerado, churn reduzido e decisões melhores?

Na prática, a empresa decide pela migração. O evento imersivo da RD Station foi o catalisador — mas no sentido inverso do planejado. A imersão no ecossistema RD fez o time perceber mais claramente as limitações que já sentia.

A ironia de eventos imersivos é que quanto mais profundo o participante mergulha na plataforma, mais clareza ele tem sobre os limites dela.

O que isso significa para quem opera RevOps no Brasil

Se você lidera RevOps em uma empresa brasileira, esse movimento da RD Station tem implicações práticas que vão além da decisão de ir ou não a um evento.

O ecossistema brasileiro está em inflexão

Estamos vivendo um momento em que o mercado brasileiro de martech e CRM está saindo da fase de "uma opção dominante" para um cenário de competição real. Isso é bom para compradores. Como analisamos no contexto da South Summit Brazil 2026, o ecossistema de tecnologia brasileiro está amadurecendo rapidamente — e quem opera RevOps precisa pensar em decisões de stack com mais sofisticação do que "o que todo mundo usa".

Eventos devem ser avaliados como investimento, não como experiência

A pergunta não é "o evento foi bom?". A pergunta é "o que mudou na minha operação por causa do evento?". Se você opera com o rigor de RevOps, precisa aplicar o mesmo pensamento de ROI que aplica a qualquer outra iniciativa. Quanto custou? O que gerou? Em quanto tempo?

Isso não significa que eventos são ruins — significa que precisam ser avaliados com a mesma disciplina que você avalia um novo canal de aquisição ou uma iniciativa de retenção. Como discutimos no artigo sobre forecasting como teatro, a tendência humana de aceitar métricas de vaidade é enorme. "O evento teve 2.000 participantes" não significa nada se você não consegue rastrear o impacto na receita.

O stack precisa ser avaliado continuamente

Se você escolheu sua plataforma de CRM há três anos e nunca reavaliou, está provavelmente usando a ferramenta errada. O mercado muda rápido demais. A HubSpot de 2026 é fundamentalmente diferente da de 2023 — assim como a RD Station de 2026 é diferente da de 2023. Reavaliar não é deslealdade com o fornecedor — é responsabilidade com a operação. O framework que apresentamos em nosso comparativo de plataformas de CRM serve tanto para quem está escolhendo pela primeira vez quanto para quem está reavaliando.

Ciclo de reavaliação de stack de RevOps Mês 0 Implementação Mês 6 Primeira auditoria Mês 12 Reavaliação formal Mês 18 Decisão: renovar/migrar Checklist de reavaliação ☐ Funcionalidades atendem necessidade atual? ☐ Integrações cobrem o stack completo? ☐ Custo total é competitivo vs alternativas? ☐ Equipe está usando acima de 60%? ☐ Relatórios atendem o board/liderança? ☐ IA e automação estão no nível esperado? Se ≤3 de 6: avaliar migração formalmente
Timeline de reavaliação de stack: a cada 12 meses, uma avaliação formal com checklist objetivo deve ser conduzida pela área de RevOps.

Mas e se a estratégia funcionar?

Seria desonesto da minha parte não considerar os cenários em que a aposta da RD Station em eventos imersivos é, de fato, brilhante. Vamos fazer o exercício.

Cenário 1: Eventos como catalisador de adoção

Uma das maiores dificuldades de qualquer plataforma de software é adoção. Como discutimos extensivamente no artigo "Você não tem um problema de CRM — tem um problema de adoção", a maioria das empresas usa 20-30% das funcionalidades que paga. Se os eventos imersivos da RD Station conseguirem elevar a adoção da base existente — fazendo clientes descobrirem e implementarem funcionalidades que já têm mas não usam —, o impacto na retenção pode ser significativo. Um cliente que usa 70% da plataforma não migra facilmente.

Cenário 2: Eventos como teste de produto

É possível que a RD Station esteja usando esses eventos imersivos como um canal de feedback de produto disfarçado de experiência. Se os workshops incluem funcionalidades em beta, prototipagem ao vivo e sessões de co-criação com clientes, o evento se torna um laboratório de desenvolvimento de produto com escala. Isso seria sofisticado e difícil de detectar de fora.

Cenário 3: Defesa de território enquanto prepara salto de produto

O cenário mais otimista para a RD Station: eventos são a estratégia de retenção de curto prazo enquanto um salto significativo de produto está sendo preparado nos bastidores. Mantém a base engajada e entusiasmada enquanto a engenharia trabalha em uma evolução substancial — talvez IA generativa nativa profunda, talvez uma plataforma unificada com CRM de verdade, talvez integrações enterprise-grade. Se isso for verdade, a estratégia é temporariamente brilhante.

Os riscos que persistem em qualquer cenário

Mesmo nos cenários otimistas, alguns riscos são inescapáveis:

  • Eventos escalam mal — diferente de um produto SaaS que escala com custo marginal próximo de zero, eventos têm custo linear. Cada novo evento imersivo custa quase tanto quanto o anterior. Se a estratégia depende de volume de eventos, o custo de aquisição/retenção sobe.
  • O tempo joga contra — cada mês que passa, as plataformas concorrentes evoluem. A HubSpot lança funcionalidades semanalmente. O Salesforce tem um exército de engenheiros. A janela para a RD Station fechar o gap de produto está diminuindo.
  • Dependência de experiência presencial — o público B2B brasileiro está cada vez mais sofisticado na avaliação de ferramentas. A geração de decisores que está assumindo poder agora avalia product-led, não event-led. Eles querem testar, comparar, ver demos técnicas — não necessariamente ir a um evento.
  • Custo de oportunidade — cada real investido em eventos é um real não investido em engenharia de produto, em IA, em integrações, em API. Se o desafio é de produto, a alocação de capital deveria refletir isso.
Matriz: Impacto vs Sustentabilidade da estratégia Sustentabilidade a longo prazo → Impacto na receita → Alto impacto / Baixa sustentabilidade Alto impacto / Alta sustentabilidade Baixo impacto / Baixa sustentabilidade Baixo impacto / Alta sustentabilidade Mega evento anual (RD Summit) Eventos imersivos regionais Evolução de produto Programa de parceiros Conteúdo digital Estratégia de eventos Estratégia de produto/ecossistema
Eventos geram impacto de curto prazo mas escalam mal. Investimento em produto e ecossistema é mais sustentável a longo prazo.

O verdadeiro jogo não é experiência — é lock-in

Vou ser direto sobre o que acredito estar acontecendo — e sobre o que significa para você que está tomando decisões de stack.

A RD Station está jogando um jogo de lock-in emocional. Quando seu time vai a um evento imersivo, aprende técnicas específicas da plataforma, faz networking com outros usuários da mesma ferramenta e volta energizado com novas ideias — tudo isso cria custos de troca invisíveis. Não é lock-in técnico (como migrar dados ou refazer integrações). É lock-in social e cognitivo. Seu time se sente parte de uma comunidade. Conhece as pessoas da RD Station pelo nome. Tem fotos do evento no LinkedIn. Migrar de plataforma passa a significar não apenas trocar uma ferramenta, mas abandonar uma comunidade.

E isso é uma estratégia legítima — todas as empresas de software tentam criar lock-in de alguma forma. A HubSpot faz isso com o ecossistema de integrações. O Salesforce faz com certificações e carreiras construídas em cima da plataforma. A RD Station faz com comunidade e eventos. O método é diferente, mas o objetivo é o mesmo: tornar a decisão de sair mais dolorosa do que a decisão de ficar.

O problema surge quando o lock-in emocional mascara uma decisão que deveria ser racional. E é aqui que quem opera RevOps precisa ser impiedosamente objetivo.

Três perguntas que você deveria fazer agora

Se sua empresa usa RD Station — ou qualquer plataforma de CRM/automação —, as perguntas que a estratégia de eventos imersivos deveria provocar são:

  1. Estou tomando decisões de stack baseado em dados ou em afinidade? Quando foi a última vez que você fez uma avaliação formal da sua plataforma contra as alternativas do mercado? Se a resposta é "nunca" ou "há mais de 18 meses", você está tomando uma decisão de inércia, não de estratégia.
  2. Minha plataforma está limitando minha operação de receita? Se você não consegue rodar relatórios que o board precisa, se a integração com o stack é manual, se o CRM não suporta o processo de vendas que você precisa — o evento mais incrível do mundo não resolve isso. Como exploramos nos artigos sobre vazamentos invisíveis no deal cycle e a ilusão do pipeline coverage ratio, problemas operacionais se escondem quando as ferramentas não dão visibilidade.
  3. O custo de ficar é maior que o custo de migrar? Todo mundo calcula o custo de migrar (implementação, treinamento, downtime). Quase ninguém calcula o custo de ficar — oportunidades perdidas, decisões sem dados, processos manuais que poderiam ser automatizados, talentos que saem porque a ferramenta é limitante. O custo de ficar é invisível mas real.

O que a RD Station deveria estar fazendo — na minha opinião

Se eu estivesse aconselhando a RD Station sob uma lente de RevOps, minha recomendação seria: invista 70% do que está alocando em eventos em engenharia de produto e 30% em eventos menores, mais técnicos e mais focados em ativação de base.

O mega evento gera awareness, mas awareness não é o problema da RD Station. Todo profissional de marketing no Brasil conhece a marca. O problema é que, cada vez mais, eles conhecem — e escolhem outra coisa. A batalha está no produto, não no palco.

Especificamente, eu priorizaria:

  • IA generativa nativa profunda — não um chatbot superficial, mas IA que realmente cria fluxos, sugere segmentações, escreve e-mails com contexto do CRM. A HubSpot já tem o Breeze Copilot fazendo isso. O gap está se alargando.
  • CRM com profundidade enterprise-lite — relatórios customizáveis, pipeline multi-estágio, forecast nativo, lead scoring sofisticado. O CRM da RD Station precisa deixar de ser um complemento do marketing automation e se tornar uma plataforma de receita.
  • API e integrações de primeira classe — como discutimos no artigo sobre o stack de RevOps enxuto, a capacidade de integrar é tão importante quanto a funcionalidade nativa. Um marketplace robusto de integrações muda o jogo.
  • Eventos técnicos, não inspiracionais — em vez de grandes palcos com palestrantes motivacionais, workshops de 20 pessoas onde se resolve problemas reais de configuração, integração e processo. Isso ativa a base e gera retenção real.

A reflexão final

A RD Station é uma empresa importante para o ecossistema de tecnologia brasileiro. Não existe schadenfreude aqui — um mercado com mais competição é melhor para todos. Mas a análise precisa ser honesta: quando uma empresa de software investe mais em experiências do que em produto, é um sinal que merece atenção.

Para quem opera RevOps, a lição é mais ampla do que a RD Station. Todo fornecedor do seu stack vai tentar criar lock-in — técnico, emocional, financeiro. Seu trabalho é garantir que as decisões da sua operação são baseadas em impacto na receita, não em afinidade com marca. Se a ferramenta que você usa é a melhor para sua operação, ótimo — renove com convicção. Se não é, nenhum evento, por mais imersivo que seja, deveria impedir você de fazer a mudança necessária.

O teste ácido é simples: se amanhã surgisse uma ferramenta que faz tudo que você precisa por metade do preço e com melhor integração, você migraria? Se a resposta é "sim, mas dá muito trabalho", o problema é técnico e resolvível. Se a resposta é "sim, mas a gente gosta muito do ecossistema deles", você está sendo retido por lock-in emocional. E no mundo de RevOps, emoção não deveria ser a variável que determina onde a infraestrutura de receita da sua empresa mora.

A melhor estratégia de retenção de uma plataforma de software não é um evento espetacular. É um produto que, quando o cliente avalia alternativas, faz ele concluir: "não tem razão para sair".
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